Crónicas de Ivan Valério: O bode expiatório

Bode

Sou o António Manuel Brás, também conhecido por Toi Bode, 53 anos, nascido e criado em Selmes e cedo descobri as minhas qualidades de bode expiatório. Foi na escola primária que se me abriram as portas desse mundo: sempre que alguém se bufava na sala e se sentia um cheiro forte no ar todos apontavam para mim e cheguei a levar cinquenta reguadas da professora na nádega direita. Ela só me batia na direita porque era do PPD! Em casa como era tudo de esquerda é que me deixavam a nádega esquerda na última com uma mangueira de regar a horta. Desde então passei a ser o bode expiatório de tudo: se havia mau cheiro na pista da discoteca era eu, se lá no bairro desapareciam umas cuecas de mulher do estendal era eu, se roubavam nabos na horta do vizinho era eu. Chegaram a culpar-me de uma chuvada no dia da procissão da santa padroeira! Passei a arcar com as culpas de tudo o que se passava em meu redor. Uma vez quando ouvi falar que o muro de Berlim tinha caído estive uma semana fechado em casa com medo que me culpassem! Lembrei-me logo que já me tinham acusado de derrubar uma vedação há uns tempos e se eu era homem para derrubar duzentos metros de vedação das vacas, bêbado na bicicleta, mais facilmente derrubava um muro em Berlim. Bom, mas a partir de uma certa altura na minha vida aceitei a minha condição de bode expiatório e até descobri que podia ganhar dinheiro com isso! Foi então nessa altura que resolvi meter-me na política. Comprei um fato e uma gravata, uns sapatos de verniz no mercado mensal e gel da Garnier Paris para o cabelo, ao estilo doutor Santana Lopes, e avancei na política local. Consegui chegar ao cargo de presidente da Junta de Marmelar e assumi todos os erros de administração na Junta desde a Idade Média. E de facto está a ter resultados estrondosos pois nas últimas sondagens para as autárquicas subi mais de 0.1% nas intenções de voto. Há quem diga até que poderei ser o próximo Presidente da República! E aí eu ia transformar tudo ao assumir os problemas do país desde 1128 quando D. Afonso Henriques bateu na mãe. Mas ainda não sei se avançarei para as eleições presidenciais, pois estou consciente que caso Tino de Rans se recandidate é de extrema importância deixar os meus possíveis votos para ele, dado que é a candidatura mais sólida e a única que poderia de facto transformar o país.

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